Histórico

Miopia

O primeiro projeto de pesquisa teatral da II Trupe de Choque contemplado pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro partiu de uma pesquisa teatral desenvolvida, de janeiro de 2004 a maio de 2006, a partir da “dialética no teatro”, tendo como objeto de estudo a obra de três importantes encenadores do século XX: Constantin Stanislavski, Bertolt Brecht e Vsevolod Meyerhold, à luz de um estudo da filosofia dialética.

A dialética pode ser definida como a filosofia da contradição e do movimento dos contrários que, ao interpenetrarem-se, geram uma nova realidade, a da sua superação.

A pesquisa partiu da hipótese de que o pensamento dialético é estruturante do teatro praticado pelos três encenadores escolhidos e, por isso, tais conceitos podem ser identificados e recriados por aqueles interessados em desenvolver novas técnicas e metodologias para o trabalho do ator, da cena teatral e de sua dramaturgia.

Nestes tempos marcados pela confusão, pelo pessimismo e a produção deliberada e em escala industrial de sombras e obscurantismo, nossa contribuição é dada através de um teatro que deve adotar o ponto de vista dos que buscam e necessitam de mudanças . Para isso é preciso oferecer uma visão da sociedade em que haja uma identificação das forças, dos processos e as relações de causalidade implicadas.

Para travar esta “luta da forma e do discurso”, escolhemos construir uma dramaturgia inédita, de forma coletiva, a partir das improvisações dos atores e da reelaboração dada por um dramaturgo (sempre presente na sala de ensaio), tendo como ponto de partida uma pesquisa sobre A Dialética no Teatro.

Paralelamente aos ensaios, o  grupo ministrou oficinas artísticas gratuitas na Usina de Compostagem de Lixo de São Mateus, abandonada há muitos anos na Zona Leste de São Paulo, procurando estabelecer um diálogo com a comunidade e com a cooperativa de Lixo reciclável que trabalha na usina, buscando a formação de público e de cidadãos conscientes da totalidade das contradições que conferem movimento à realidade social que os cerca. A este processo pedagógico e artístico, o grupo deu o nome de Teatro Peripatético. As oficinas artísticas tiveram por objetivo, aliadas à realização de ensaios abertos, seminários e de estágios nas áreas de cenário, iluminação e interpretação, compartilhar os resultados alcançados pelo grupo em seus estudos e no seu processo de criação. O público alvo do grupo é aquele formado por comunidades em que o acesso ao teatro é restrito e proibitivo.

Para a criação do espetáculo do grupo, Miopia, as oficinas proporcionaram o diálogo com pessoas das mais diversas experiências teatrais, vindas dos mais diversos estratos sociais, elaborando forma e conteúdo para trazer nova luz às relações econômicas que baseiam as experiências cotidianas dos excluídos da metrópole. Para os alunos, as oficinas buscaram, a partir de suas experiências de vida e de suas manifestações culturais, a abordagem e discussão dos aspectos sociais que envolvem a exclusão no Brasil.