O ensaio em devir Corpos Acumulados procura estabelecer com seu público uma experiência crítica. Além de uma racionalidade cínica, que se estabelece na relação com o público, que não sabe nunca quais as regras do jogo e as leis a que está submetido, estamos lidando com uma tentativa de experiência coletiva.
Assim como foi privado de sua biografia, o ser humano sob o capital tardio foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha sobre si mesmo. Walter Benjamin, que já em 1933 havia diagnosticado com precisão a pobreza de experiência da época moderna, indicava suas causas na catástrofe da guerra mundial, de cujos campos de batalha “a gente voltava emudecida…não mais rica, porém mais pobre de experiências partilháveis….”.
No entanto, nós hoje sabemos que, para a destruição da experiência, uma catástrofe não é de modo algum necessária, e que a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é, para esse fim, perfeitamente suficiente. Pois o nosso dia dia contemporâneo não contêm quase nada que seja traduzível em experiência.
Mas talvez se esconda, no fundo desta crítica ao cotidiano danificado, um grão de sabedoria no qual possamos adivinhar, em hibernação, o germe de uma experiência futura. Corpos acumulados investiga a tarefa de preparar o lugar em que este germe possa atingir a maturação.
A expropriação da experiência está ligada aos ditames da razão administrada e da ciência tecnicizada. Em um fragmento em que o filosofo Francis Bacon distingue, no século XVIII, experiência de experimento, há pistas importantes sobre a itinerância e o vagar do público em Corpos acumulados:
“A experiência, se ocorre espontaneamente, chama-se acaso, se deliberadamente buscada recebe o nome de experimento. Mas a experiência comum não é mais que uma vassoura desmantelada, um proceder tateante como o de quem perambulasse à noite na esperança de atinar com a estrada certa, enquanto seria mais útil e prudente esperar pelo dia ou acender um lume, e só então pôr-se a caminho. A verdadeira ordem da experiência começa por acender o lume; com este, em seguida, aclara o caminho, iniciando pela experiência bem disposta e ponderada, que chamamos de experimento, e não por aquela descontínua e às avessas, primeiro deduz os axiomas e depois procede a novos experimentos”.
Esta “vassoura desmantelada”, este “proceder tateante de quem perambulasse à noite na esperança de atinar com a estrada certa” é o nosso percurso de pesquisa até aqui e se reproduz no caminho que o público faz pelo espetáculo. Assim, não estamos realizando um experimento que tem resultados previstos e dedutíveis e que pode ser repetido a qualquer momento, sob as mesmas condições de temperatura e pressão. Estamos caminhando sem lume e tal percurso constitui uma tentativa coletiva de se chegar a lugares não previstos nos mapas da sociedade do espetáculo, gravando o percurso de nossos rastros em nossos corpos e mentes. Este tatear coletivo em busca de esperança é a nossa experiência, é o que podemos oferecer ao público, desde que este queira caminhar.
TRAILER – Corpos Acumulados


