O Corpo Político

Para esta pesquisa o corpo foi a medida de todas as coisas. O corpo é produtor de valor e receptáculo de valores e condições sociais específicas. O corpo é também um projeto inconcluso, de certo modo maleável histórica e geograficamente.

A preparação corporal e a construção dos corpos dos personagens teve que levar em conta que o corpo é interna e externamente contraditório em virtude dos múltiplos processos socioecológicos que para ele convergem. O conjunto de atividades performativas disponíveis ao corpo num dado tempo e lugar não são independentes do ambiente tecnológico, físico, social e econômico em que esse corpo tem seu ser. E também as práticas representacionais que operam na sociedade moldam o corpo (e, mediante as formas de trajar e de se postar, propõem todo tipo de sentidos adicionais). Isso significa que toda contestação de um sistema dominante de representação vem a se tornar uma contestação direta de práticas corporais. Distinções de classe, de raça, de gênero e de uma multiplicidade de outros aspectos, como a exclusão e a repressão exercida pelo trabalho, se acha inscritas no corpo. O trabalho do ator é capaz de revelar fisicamente uma estrutura dominante carcomida, desvelando, através de ações simbólicas, sentidos antes n]ao percebidos.

O corpo humano é também ativo e transformador em relação aos processos que o produzem. O maior objetivos da pesquisa corporal que envolve este trabalho é transformar o corpo de cada ator em um elemento funcional naquilo que poderia se chamar de “o corpo político”. O corpo capaz de dar significados políticos aos signos que cria no espetáculo teatral.

Se compreendemos que o corpo internaliza tudo que existe o inverso também é verdadeiro. Se internaliza todas as coisas, o eu pode ser “a medida de todas as coisas”. Essa idéia remonta a Protágoras e aos gregos; ele permite ver o indivíduo como uma espécie de centro descentrado do cosmos, ou, como prefere dizer Munn em sua análise das práticas sociais da ilha melanésia de Gawa, “o espaço-tempo corporal serve como signo condensado do espaço-tempo mais amplo de que é parte. Só se pode considerar significativamente o corpo dessa maneira quando ele é visto como aberto e poroso ao mundo.

Esse conceito relacional do corpo, do eu, do indivíduo constitui uma rejeição da visão de mundo tradicionalmente atribuída a Descartes, Newton e Locke, que funda o ideal do corpo “civilizado” e “individualizado” (compreendido como uma entidade num espaço e num tempo absolutos e como sede de direitos de propriedade inalienáveis e restritos) de boa parte do pensamento ocidental. A preparação corporal tradicional em um processo criativo também é tributária desta visão de mundo tecnocrática e busca a aplicação de técnicas independentes de conteúdos e de formas estéticas, isolando, durante o trabalho físico em sala de ensaio, o corpo de sua história coletiva e do seu potencial político.

Libertar os sentidos e o corpo humano do absolutismo do mundo produzido pelo espaço e pelo tempo cartesiano/newtonianos é central ao trabalho artístico dialético, que considera o corpo como possibilidade de emancipação. E isso significa contestar a visão mecanicista e tecnicista por meio da qual o corpo é contido, disciplinado e treinado. O objetivo desta pesquisa foi sistematizar práticas corporais necessárias à obtenção e ao treinamento do corpo político.

Enquanto a divisão do trabalho limita o desenvolvimento de todas as potencialidades do corpo, o avanço tecnológico impele o trabalhador a se revolucionar  todo tempo:esta contradição é central ao dilaceramento do corpo e da personalidade contemporânea. O desenvolvimento da produção capitalista envolve uma radical transformação da própria natureza do corpo que trabalha. O projeto inacabado do corpo humano é impelido num conjunto particular de direções contraditórias. E para explorar essas possibilidades foi se estabelecendo toda uma gama de ciências para planejar e explorar os limites do corpo humano como máquina produtiva, como organismo fluido. O capitalismo está e sempre esteve voltado precisamente para a produção de um novo tipo de corpo trabalhador. Os treinamentos corporais no teatro constituem mais um ramo dessas ciências produtivas e por isso importa a esta pesquisa abordar a preparação e a criação corporal de forma diferente: capaz de constituir um corpo poroso aos movimentos da realidade histórica, um corpo que se prepara para dialogar física e poeticamente com a história.

Estudar, durante os Núcleos Peripatéticos e os ensaios, e trabalhar a partir do corpo do trabalhador e do corpo da exclusão, ambos os corpos submetidos aos imperativos do mercado e transformados em verdadeiras máquinas desejantes, significou revelar também estruturas sociais, modificando-as e questionando-as no corpo dos alunos e dos arte-educadores.

Dentre muitos, alguns procedimentos foram experimentados, em busca deste corpo capaz de expressar e criticar uma realidade de sociedade do espetáculo:

  1. Práticas físicas com vendas e olhos fechados: a partir da instabilidade, o corpo do ator foi levado a novos repertórios de movimento, gerando uma movimentação fantasmática, capaz de revelar um mundo de trabalho abstrato e de trabalho precarizado, de consumo de imagens , de sonhos e de vidas.
  2. Prática com a partitura física: a partitura física, criada em relação a conceitos abstratos como consumo, trabalho , ou de temas mais concretos, como lixo, corpo lixo e corpo mercadoria, levou-nos a um universo simbólico de preparaçao corporal.
  3. Treinamento físico individual : espaço individual de preparação e pesquisa, em que cada ator executou procedimentos específicos, criados para um enfrentamento das dificuldades de cada um.
  4. Prática a partir de detritos da indústria cultural: a experimentação de músicas vastamente propagadas pela indústria cultural, trouxe uma prática de movimentos e de um corpo degradado, manipulado, administrado.