Esse núcleo tem como objetivo pesquisar a sonoridade para a peça Corpos Acumulados, assim como investigar as possibilidades de relação entre o teatro e a música.
Como referencial teórico, escolhemos:
- O encenador Vsévolod Meyerhold – a partir do livro: A cena em ensaios, de Beatrice Picon Vallin;
- O encenador Jerzy Grotowski, a partir dos livros: A voz integrada ,de Patrick George Warburton Campbell e Em busca de um teatro pobre, de Peter Brook;
- O músico contemporâneo Karlheinz Stockhausen, com o texto: 11 de setembro – ultimo instantâneo da vanguarda artística;
- O músico e artista plástico John Cage, com o livro: Sobre arte moderna, de David Sylvester;
- A música dodecafônica, a partir Arnold Shoenberg e Theodor Adorno, tendo como referência o livro: Sobre música e verdade no século XX, de Jorge de Almeida.
Os encenadores Meyerhold e Grotovski, trabalharam, cada um ao seu modo, com a linguagem da música em suas pesquisas teatrais. O que há de comum entre os dois é a questão da partitura: o primeiro trabalha com a partitura física e o segundo com uma partitura físico-vocal.
Segundo Meyerhold, a música pode ser entendida como um sistema que orienta a encenação e nisto, a questão do ritmo é essencial. Para ele, as relações entre teatro e música não são de equivalência, mas extremamente complexas e variáveis: “ presente, a música não ilustra a ação, mas estrutura-a, provocando deslocamentos; ausente, ela contamina a esfera sonora do espetáculo pela musicalização do texto e do gestual”.
Para Grotowski, o trabalho vocal é abordado de forma altamente física. No seu sistema de treinamento, o corpo dá o impulso inicial para a vocalização por meio de ações físicas e evocações imagéticas precisas.
Escolhemos Stockhausen pela provocação que ele apresenta com relação à arte contemporânea., Segundo ele, “há uma distinção Kantiana entre o belo e o sublime. Kant diz que o belo, nessa construção de padrões, chega a um certo equilíbrio. O sublime não tem equilíbrio nenhum. O 11 de setembro é o sublime, ele simplesmente estourou os padrões, como todos os movimentos de vanguarda sonhou. (…) Como as vanguardas , o atentado terrorista foi engajado politicamente. Como as vanguardas, o atentado rompeu com a idéia de produto, instaurando um processo, eternamente repetido pela mídia e pelas memórias dos espectadores. Como as vanguardas, o atentado se apropriou da indústria cultural, ocupando-a militarmente: foi pensado e organizado esteticamente para produzir imagem de impacto, capaz de ser reproduzida infinitamente. Como se de vanguardas, o interesse dos terror-artistas , não era atingir o território norte-americano, bombardeando-o mas o de ocupar seu imaginário, derrubar suas representações, arruinar suas expectativas, com uma imagem perfeita e imprevisível, inaugurando novos espaços-tempo”.
Música dodecafônica: propõe uma outra forma de composição, composta por doze notas que são combinadas de diversas formas e todas as notas são tratadas com equivalência, não há predominância de uma sobre a outra, como há na música tonal. O criador dessa técnica é Arnold Shoenberg. O filósofo Theodor Adorno apresenta uma análise sobre a música dodecafônica,(Pelo nosso cronograma, ainda não chegamos nessa referência, está programada para os próximos encontros)
As atividades, além de trabalhar com as referências escolhidas e com as cenas do roteiro, procuram dialogar com a musicalidade presente em cada enfermaria, posto que é muito diferente em cada uma.
O núcleo de Teatro e Música é realizado nas enfermarias de agudos masculina e feminina e no Convívio, além utilizar espaços abandonados do Pinel. O núcleo é estruturado com a pedagogia da desrazão, coordenado pelos integrantes da Trupe, que se revesam a cada encontro, são eles: Eduardo Cruz, Luzimara Azevedo e Marcelo Correia. O núcleo também conta com a participação de uma colaboradora, Joeli Monteiro.
As atividades, além de trabalhar com as referências escolhidas e com as cenas do roteiro, procuram dialogar com a musicalidade presente em cada enfermaria, posto que é muito diferente em cada uma. A seguir, falarei especificamente de cada encontro realizado nesta segunda etapa do Fomento.
14/03/2009
Referência:Meyerhold e cena 2, coordenação: Luzimara Azevedo
Espaço: em frente à Clínica masculina de agudos
A partir de algumas músicas, era proposto para se movimentar em oposição ao som, procurando estabelecer um diálogo com aquele espaço.
Montar uma partitura selecionando os movimentos. Improvisar uma cena com o tema das sereias, cena 2.
Observações/resultados: todo o exercício foi realizado em frente à clínica, e a improvisação foi mediada pela grade que circula o espaço: os pacientes atrás grade. Passamos os instrumentos e o microfone para dentro da clínica e eles improvisaram toda a musicalidade da cena.
21/03/2009
Referência: Meyerhold; coordenação: Marcelo Correia
O objetivo era trabalhar especificamente com uma metodologia de composição de partitura de ações. Trabalhar com um modelo de composição de partitura corporal a partir da transformação de um outro procedimento: a roda dos ritmos. A referência do roteiro dramatúrgico escolhido tinha que ser algo sintético, que pudesse ao mesmo tempo proporcionar uma experiência de composição de uma partitura física (seqüência de ações e gestos selecionados, arranjados e fixados pelo ator) e transitar pela Biomecânica de Meierhold. A partir desse contexto, selecionei uma ação feita por Penélope: cena 3 – “Livros e lixo espalhados. Penélope aparece com uma caixa para recolhê-los”4.
Espaço: convívio antigo. Procedimento 1 – Entrar e sair da roda. Meu olhar flutua entre me observar e observar o outro. Meu olhar percebe que o outro se dilui em mim e eu nele.
Olhar na roda. Sair da roda um de cada vez. Percorrer toda a roda ficando em frente ao companheiro que estiver na roda. Olhar o olhar do outro. Percorrer a roda, receber e capturar o olhar do outro.
Apresentar-se na roda através do nome e de um gesto.
Repetir a apresentação. Recuperar mentalmente a trajetória do corpo no espaço. Repetir a apresentação. Selecionar uma ação de outra pessoa. Refazer essa ação. Recuperar mentalmente a trajetória do corpo no espaço. Repetir. Misturar com a sua ação. Recuperar mentalmente a trajetória do corpo no espaço. Repetir.
Criar ações de Penélope. A ação de Penélope na cena é contada: “Livros e lixo espalhados. Penélope aparece com uma caixa para recolhê-los”. Instrução I (Improvisação individual): todos ao mesmo tempo recolhem livros e lixos no chão experimentando formas diferentes de realizar a mesma ação no espaço podendo sair da roda. Selecionar uma trajetória para a ação. Repetir a trajetória. Recuperar mentalmente a trajetória do corpo no espaço. Repetir a ação. Instrução II (Improvisação coletiva: Deixar-se afetar pelo outro): mostrar o primeiro esboço da partitura para a roda e ver a partitura do outro selecionando ações, gestos que interessarem. Fazer segunda rodada de apresentações com as partituras misturadas.
No fim do encontro, entregamos o roteiro da peça e o texto do Stockhausen, para discutirmos no próximo encontro.
28/03/2009
Referência: Meyerhold e Stockhausen, cena 3; coordenação: Luzimara Azevedo
Começamos discutindo os textos. Stockhausen e, a partir da discussão, fomos para o aquecimento:
Espaço: nos cipós, (lugar abandonado no Pinel)
Procedimentos: Formar duplas. Um massageia a coluna do outro. Se movimentar pelo espaço a partir da coluna.
Em dupla: um é dominado, outro é dominante, explorar essa relação /esses movimentos a partir da coluna. Quais sons partem desses movimentos? Cria uma partitura, seleciona uma sequência de ações de movimentos experimendos durante o exercício.
Em dupla, improvisar uma cena com o tema: a explosão do Shopping; a improvisação deve conter as partituras.
No fim da atividade, foi solicitado para cada um transformar sua partitura física –apresentada- em uma partitura musical, em uma sonoridade. Para fazerem ao longo da semana e trazer no próximo encontro.
04/04/2009
Referência: Meyerhold e Stockhausen, cena 3; coordenação: Eduardo Cruz
Trabalhamos a partir da sonoridade que cada um trouxe – referente à partitura da semana anterior. Fomos improvisando, somando as partituras ligadas a um exercício físico: se movimentar a partir da coluna; como os sons interferem no seu movimento?
Em dupla, criamos uma partitura física e musical, com o tema da explosão do shopping, e apresentamos.
11/04/2009
Referência: Meyerhold e a cena 3 do roteiro, coordenação: Joeli e Eduardo
Espaço: Clínica masculina de agudos
Proposta: se movimentar pelo espaço, buscar movimentos de animais,
Busca o diálogo com o outro – que animal você é?
Seus movimentos passam a ser uma atração num shopping center;
Quais são os sons/as vozes que surgem a partir desses movimentos?
Constói uma partitura reunindo movimentos experimentados durante o aquecimento;
Em grupos, improvisar uma cena com o tema: a atração do shopping, que atração você é?
Observações: Levamos um amplificador com microfone para o pátio da enfermaria e, durante toda a proposta, os pacientes ficaram cantando, contando histórias, e isso era mote para a improvisação das atrações do shopping.
18/04/2009
Referência: Grotowski e a cena 3 do roteiro; coordenação: Luzimara e Marcelo
Espaço: Convívio antigo
Eram entregues textos da cena,; explorar formas de dizer o texto; explorar movimento que surge da palavra;
Criar uma partitura físico-vocal a partir do que foi explorado no exercício.
Desenhar essa partitura.
25/04/2009
Referência: Meyerhold e John Cage ; cena dois: as sereias; coordenação: Luzimara e Marcelo
Espaço: Rua principal do PINEL
Espalhamos muitos instrumentos pela rua, pedia-se para as pessoas circularem entre os instrumentos, procurando maneiras de se relacionar com eles. Escolher um instrumento.
Formar duplas: um massageia a coluna do outro; de olhos fechados, começa a se movimentar pelo espaço a partir da coluna. Vai de encontro ao instrumento escolhido, experimenta utilizar o instrumento como prolongmento da coluna, prolongamento do corpo; explorar os movimentos juntamente com a sonoridade produzida a partir deles; explorar em diálgo com o outro. Congela. Líamos o trecho em que as sereias fazem Ulisses desistir de jogar os corpos ao mar. Começávamos, nas dulas, a improvisar a sonoridade das sereias. Congela. Espalhávamos desenhos pelo chão – que tínhamos feito semana passada- a proposta era tocar esse canto usando os desenhos como partituras, e se movimentar a partir das partituras. Cada dupla montou uma sequência musical e de açòes e apresentou.
09/05/2009
Referência: Grotowski e cena 3; coordenação: Luzimara Azevedo
Espaço: Convívio
Aquecimento em frente ao Convívio. Andar pelo espaço percebendo os sons do lugar. Explorar movimentos lentos com máxima tensão, seu corpo vaga no deserto do shopping que explodiu. Entrar no convívio para graver a musicalidade do lugar. A troca é a música. Cada um pegava um instrumento, que tinha escolhido no início da atividade, e começava a improvisar com os pacientes, somando ruídos, vozes, sons. A partir do que foi produzido, o grupo conversou sobre a musicalidade da cena 4.
16/05/2009
Referência: Grotowski e cena 4; coordenação: Marcelo Correia
Espaço: Convívio antigo
A proposta era compor uma sonoridade para o Hécuba’s Drinks, espaço da cena 4. Íamos improvisando sons de desejo e depois editamos.
30/05/2009
Referência: Grotowski e cena 3; coordenação: Eduardo e Joeli
Espaço: Convívio
Foi proposto para experimentarmos o desfile do Fausto, no shopping center, e toda troca ali dentro do convívio se dava através desse tema.
06/06/2009
Referência: Grotowski e cena 3, coordenação: Luzimara e Maurício
Nesse dia, realizamos a proposta junto com o núcleo de fotografia, cujas referências eram: Tadeusz Kantor e o conceito de anti-exposição e de exposição de luz.
Espaço: Convívio
Proposta: escolher um lugar, seu corpo se movimenta a partir dessa contradição: metade do seu corpo é leve, metade é pesado.
Escolhe um instrumento: explora –lo como extensão do seu corpo, como extensão da contradição leve-pesado. Buscar um diálogo musical com os pacientes. Buscar um diálogo fotográfico. Produzir música a partir da foto e produzir foto através da música.
20/06/2009
Referência: Grotowski e platô 1: personagem Orfeu; coordenação: Marcelo Correia
Espaço: a proposta teve inicio no convívio antigo e se expandiu por todo o espaço do Pinel.
Procedimentos: cada pessoa escolhia um vestido e o colocava na roda; era entregue um trecho do texto do personagem Orfeu – experimenter dizer esse texto de várias formas: se apropoiar do texto – palavra geradora de imagens internas e de movimentos. Após esse contato, o trabalho foi direcionado para a relação com vestido: Largar o texto e contar história de Orfeu, misturando outras vozes. Nesse momento, dava-se a instrução de percorrer os espaços do Pinel, se relacionando com o vestido e contando a história, povoando o corpo de Orfeu de outras vozes presente no espaço: dos outros núcleos, de funcionários, de moradores do Pinel.
Interferimos no núcleo de fotografia, improvisando com a instalação que havia montado; interferimos no núcleo de video, na enfermaria feminina de agudos, improvisando um cena sobre o trabalho, com todas as pacientes presentes ali.
Com esse exercício fomos compondo as vozes e os cantos de Orfeu investigando a polifonia.


