Teatro e Interpretação Polifônica

O objetivo do núcleo é pesquisar uma interpretação polifônica, que possibilite à construção de personagens formados por inúmeras vozes, revelando a cada frase voz de outros, a voz de suas histórias pessoais e coletivas, as vozes sociais em conflito.

Para a realização da pesquisa de interpretação polifônica, pesquisamos importantes encenadores do século XX: Stanislavski, Meyerhold, Brecht, Artaud, Grotowski e Eugenio Barba nos fazendo a seguinte pergunta: O que há de polifônico nestes encenadores?

Assim como toda a pedagogia dos núcleos, elaboramos um plano de estudo, norteado pelo conceito da troca de experiências do encenador Eugenio Barba.

12/02/09 – Referência: O discurso em Dostoiévski.

Coordenador: Inácio.
Espaço: Quiosques

Procedimentos:

1- Alongamento. Movimentação das articulações.

2-Andando pelo espaço.
A observação dos outros serve de PRETEXTO ao seu movimento.
Fazer uma PARÓDIA a partir da observação do movimento dos outros.
IMITARÁ os movimentos dos outros.

3-Formam-se duplas. Um dos integrantes da dupla será o nº. 1 e o outro será o nº. 2.
Nº. 1 vai ATINGIR o nº. 2.
Nº. 2 vai AVALIAR o nº1.
Nº1 vai INVEJAR o nº. 2.
Nº. 2 vai SEDUZIR o nº. 1, tentando se comunicar em uma LÍNGUA IMAGINÁRIA.

4- Formam-se dois grupos. Cada grupo improvisa uma cena sobre: a saída dos corpos tóxicos do campo de refugiados.

19/02/09 – Referência: Stanislaviski
Coordenador: Ivan Delmanto.
Espaço: Convívio antigo.

Procedimentos:

1- Escolher um personagem da cena 1.
2- Encontrar os objetivos da personagem no trecho a ser trabalhado.
3- Realizar os objetivos com ações físicas, sensações táteis e recursos auditivos sem utilizar uma palavra.
4- Ao finalizar toda a seqüência de ações, improvisar o trecho trabalhado inúmeras vezes, sem interrupção para comentar o exercício.

26/02/09 – Referência: Meyerhold.
Coordenador: Sansorai de Oliveira.
Espaço: Convívio antigo.

Procedimentos:

1 – Explorar diferentes formas de movimentar o corpo: formas geométricas (andar somente em quadrado, círculos, triângulos, etc), dançar, movimentos animais.
2 – Ao explorar cada uma dessas formas, no final de cada umas delas, todos param e nesse momento cada um percebe as modificações/transformações em seu corpo, e faz um retrato de si daquele momento, sendo explorada diversas formas de fazer esse auto-retrato como, fotografia, escrita, descrições, vídeo, desenho.
3 – No final do aquecimento selecionar os movimentos e criar uma partitura física.
4 – Improvisação: dividir os personagens a partir do texto da cena 1 e remontá-la utilizando a partitura e os auto-retratos produzidos.

05/03/09, 12/03/09 e 19/03/09 – Estudo teórico -pratico sobre a interpretação polifônica coordenado por Ivan Delmanto.

26/03/09 – Referência: Eugenio Barba.
Coordenador: Sansorai de Oliveira
Espaço: Convívio antigo.

Procedimentos:
1 – escrever uma “experiência” ocorrida no dia.
2 – explorar formas de contar a “experiência” do outro.
3 – a experiência do outro vira a sua experiência.A voz do outro se torna a sua.
4 – As palavras se tornam movimentos, os movimentos transformam seu corpo.
5 – seu corpo acumula experiências, o corpo acumula o lixo.
6 – o corpo é experiência morta, seu corpo é incapaz de ter experiências, um corpo sem passado nem futuro somente presente.
7 – Improvisação: a partir do conceito de safári da cena 3, utilizando as “experiências” do exercício, improvisar uma cena onde “o corpo é uma obra de arte numa exposição jamais vista”

02/04/09 – Referência: O discurso em Dostoiévski.
Coordenador: Inácio.
Espaço: Quadra de esportes.

Procedimentos:
1- Alongamento. Movimentação das articulações.
2-Andando pelo espaço.
A observação dos outros serve de PRETEXTO ao seu movimento.
Fazer uma PARÓDIA a partir da observação do movimento dos outros.
IMITARÁ os movimentos dos outros.
3-Formam-se duplas. Um dos integrantes da dupla será o nº. 1 e o outro será o nº. 2.
Nº. 1 vai ATINGIR o nº. 2.
Nº. 2 vai AVALIAR o nº1.
Nº1 vai INVEJAR o nº. 2.
Nº. 2 vai SEDUZIR o nº. 1, tentando se comunicar em uma LÍNGUA IMAGINÁRIA.
4- Formam-se dois grupos. Cada grupo improvisa uma cena sobre: o shopping dos horrores, utilizando as ações exploradas no aquecimento.

09/04/09 – Referência: Stanislavisky
Coordenador: Ivan Delmanto.
Espaço: Convívio antigo.

Procedimentos:
1- Após ler o texto abaixo, o grupo deve dividir-se em duplas. As duplas devem escolher o local que lhes interessar para a realização do exercício. Antes de começar, devem reler as instruções e o texto abaixo, até que o conjunto de todos os passos torne-se claro. É importante que a dupla controle o tempo de realização do exercício, já que o mesmo ficará INUTILIZADO CASO TODAS AS ETAPAS NÃO SEJAM CUMPRIDAS.

2- Em duplas: dividir o texto abaixo em objetivos. Lembrem-se: os objetivos para Stanislavski são ações, portanto sempre verbos, imagens concretas e simples. Os objetivos devem ser contraditórios entre si. A imagem da trajetória do personagem não deve ser a de uma linha reta de ações, mas a de um emaranhado de fios. Quanto mais concreta a ação, melhor o objetivo. Por exemplo: “arrancar a pele com as unhas” é melhor do que “sentir saudades”.

3-Em duplas: realizar os objetivos, sem palavras, na relação com o outro. O ator 1 propõe o primeiro objetivo. O ator 2 reage a este objetivo, COM UMA AÇÃO QUALQUER, E NÃO COM UM OBJETIVO DO TEXTO. Agora troca: o Ator 2 propõe o primeiro objetivo, à sua maneira, e o Ator 1 reage, COM UMA AÇÃO QUALQUER. Depois, passa-se ao segundo objetivo e assim sucessivamente. O que importa é realizar todos os objetivos retirados do texto abaixo, cada ator à sua maneira e sem interrupções: um objetivo gerando uma reação, mais um objetivo e mais outra reação etc, sem NENHUMA ESPÉCIE DE INTERRUPÇÃO OU QUEBRA DO FLUXO.

4-Repetir a etapa anterior por mais duas vezes.

5- A partir da etapa anterior, cada ator, INDIVIDUALMENTE, selecionará uma partitura física de ações.

6-Cada um realiza, em contato com o outro, a sua partitura de ações. A improvisação deve conter apenas a partitura de cada um: ou seja, cada ator age e reage apenas com a sua partitura.

7-Repetir a etapa anterior por mais duas vezes, sempre com a mesma partitura física.

8-Executar as ações da partitura sentados, olhando nos olhos um do outro, apenas com ação interna.

9- Repetir a etapa anterior por mais duas vezes.

10-INDIVIDUALMENTE: Unindo ação interna e externa, repetir a partitura física tentando encaixar as palavras do texto às ações e objetivos selecionados. As palavras que não se encaixam podem ser deixadas de lado. Não é necessário decorar todo o texto, mas as palavras empregadas devem ser ditas sem o texto na mão, executando-se a partitura. A seqüência de ações, internas e externas, deve ser repetida inúmeras vezes.

11- No próximo encontro, trabalharemos novamente a partir do personagem Fausto, só que então a partir dos resultados deste exercício.

Trecho da texto da cena 3- Pinel:

FAUSTO – A partir de agora assistiremos juntos ao mundo de Helena. Viciados em imagens, estudaremos absortos o registro documental do caos contemporâneo na fútil esperança de que isso renderá algo mais que uma coleção de fragmentos de partes humanas separadas e mutiladas. Estudaremos, sem jamais chegar a nenhuma conclusão sobre elas, uma coleção de pinturas sobre atrocidades realizadas por consumidores compulsivos e anônimos, modelos de desastres automobilísticos montados por meus assistentes, radiografias sobre moléstias exóticas, imagens sobre neurocirurgia e transplantes de órgãos, autismo e doença senil, atropelamentos e quedas de avião, um inquietante panorama de dor e mutilação. Naturalmente nunca encontraremos o que estamos procurando. (As luzes se acendem. Fausto tira a máscara: sua cabeça é uma caveira). Foram realizados estudos a fim de determinar os efeitos da exposição prolongada a telejornais que retratavam a tortura na base de Guantánamo: (a) combatentes do sexo masculino, (b) auxiliares do sexo feminino, (c ) crianças, (d) feridos. Em todos os casos, registrou-se um crescimento acentuado na intensidade da atividade sexual, com ênfase particular em práticas orais e anais. A excitação máxima foi provocada pela combinação das seqüências de tortura com as de execuções. Filmes trucados mostravam personalidades públicas associadas à guerra do Iraque, por exemplo, o ministro Tony Blair, o marechal Ky, Bill Gates, substituídos tanto por combatentes como por vítimas. Com base nas preferências dos espectadores, planejou-se uma seqüência ótima de tortura e execução englobando o presidente Busch, Ladi Di e uma indefinível menina iraquiana de oito anos de idade vitimada por antrax…O filme foi exibido subseqüentemente tanto para crianças deficientes como para pacientes terminais de câncer, com resultados úteis.

16/04/09 – Referência: Meyerhold.
Coordenador: Sansorai de Oliveira.
Espaço: Convívio antigo.

Procedimentos:

1- A partir das ações realizadas no exercício anterior.
2- Explorar diferentes formas de movimentar o corpo: formas geométricas (andar somente em quadrado, círculos, triângulos, etc), dançar, movimentos animais.
3- Ao explorar cada uma dessas formas, no final de cada umas delas, todos param e nesse momento cada um percebe as modificações/transformações em seu corpo, e faz um retrato de si daquele momento, sendo explorada diversas formas de fazer esse auto-retrato como, fotografia, escrita, descrições, vídeo, desenho.
4- No final do aquecimento selecionar os movimentos e criar uma partitura física.
5- Improvisar a cena trabalhada na semana anterior.

23/04/09 – Referência: Stanislaviski
Coordenador: Amanda Cavalcante

Procedimentos:
1- Ensaio da cena 2 do Pinel.
2- Passar a cena 3 vezes sem interromper.
3- Passar uma vez só com ação interna.
4- Passar uma vez só com as ações físicas.
5 – Passar uma vez só com o texto.
6 – Passar uma ultima vez unindo os itens trabalhados anteriormente.

30/04/09 – Referência: Brecht.
Coordenador: Ivan Delmanto.
Espaço: Convívio e Druidas.

Procedimentos:
1 – Durante 1 hora discutimos a sinopse da peça: com o intuito de realizá-la numa improvisação de 20 minutos.
2 – Movimentar o corpo a partir da sensação dos pés por 1 hora.
Usar a mascara neutra.
3 – Improvisar a sinopse da peça em 20 minutos.

07/05/09 – Referência: Brecht.
Coordenador: Sansorai de Oliveira.
Espaço: Convívio e Druidas.
Procedimentos:
Repetição do exercício realizado na semana anterior.

14/05/09 – Referencia: Artaud.
Coordenador: Sansorai de Oliveira.
Espaço: Convívio antigo.

Procedimento:
1 – em duplas massagear o corpo do outro, o osso.
2 – se movimentar pelo espaço a partir do seu osso
3 – movimentos que buscam a exaustão
4 – explorar palavras das sereias (cena 2)
5 – as palavras e o corpo ocupam todo o espaço
6 – o corpo se deteriora com o espaço
7- Improvisar uma cena com as sereias da cena 2.

21/05/09 – Referência: Artaud
Coordenador: Amanda Cavalcante
Espaço: Banheiro do porão.

Procedimentos:

1- Em duplas massagear todos os ossos do corpo com os ossos dos dedos.
2- Caminhar com a sensação dos ossos
Arrastar os ossos. Balançar os ossos por todo o espaço. Variando a velocidade.
3 – Falar todas as palavras que vier a cabeça sem utilizar a língua.
4 – Improvisar (em língua) trabalhadores que não param de trabalhar num shopping que não pára de explodir.

28/05/09 – Referência: Grotowski
Coordenador: Sansorai de Oliveira

Espaço: Convívio antigo

1 – escolher movimento corporal mais rico que tem e repeti-lo sem parar
2 – apresentar a todos
3 – a partir da apresentação, incorporar movimentos dos outros ao seu, e repeti-los.
4 – apresentar a todos
5 – Improvisação: montar a sinopse utilizando a movimentação experimentada.

04/06/09 – Referência: Grotowski
Coordenador: Amanda Cavalcante.
Espaço: Convívio antigo

Procedimentos:
1- Arrecadar o maior número de objetos relacionados com a explosão/ construção do shopping.
2 – Em duplas, massagear a coluna do outro.
3 – Ocupar todo o espaço, deixando a música percorrer todo o corpo, com movimentos que partem sempre da coluna.
4 – Todos param apenas uma pessoa continua se movimentando. Todos a observam. Caso alguém sinta necessidade a espaço para interferir no movimento do outro.
5 – Improvisar: a eterna construção/ explosão do shopping.

Durante as investigações, buscamos conceitos dos encenadores que nos aproximassem do que imaginamos ser a interpretação polifônica. Em Stanislavisky, estudamos o conceito de ação interna.
Dos textos pesquisados de Meyerhold, exploramos no exercício o ator olhando para dentro de si para perceber as modificações em seu corpo. O encenador coloca que o ator deve constantemente se enxergar como se estivesse olhando para um espelho, constantemente se conscientizando de suas alterações físicas. Com isso, realizamos um exercício onde o ator ao perceber as modificações de seu corpo no decorrer do exercício, poderia aproximar-se das vozes que habitam esse corpo.

Em Brecht, nos questionávamos: qual forma poderia ressaltar as vozes que habitam a subjetividade do homem, conciliado ao conteúdo.
No decorrer desta primeira fase, norteados pelo conceito de troca de experiências de Barba. Questionávamos: é possível o intercâmbio de experiências? O individuo ainda é capaz de acumular experiências? E se o é, que experiências de fato são essas?A polifonia desse encontro foi traçada a partir desses questionamentos.

A proposta de interpretação polifônica para Artaud foi elaborar um exercício onde fosse possível trabalhar sobre o conceito de “como criar para si um corpo sem órgãos”. Em Grotowski, buscamos criar um corpo extra cotidiano que transformasse o espaço cênico num momento de convite ao espectador a testemunhar as ações do ator. Grotowski fala sobre o HIC ET NUNC (aqui e agora), onde é necessário “provar a semente da criatividade”. A idéia desse encontro foi unir esse conceito ao auto aniquilamento, como “provar a semente da criatividade” em um movimento considerado rico, e a partir dele experimentar novas possibilidades.
Em 04/06/09, encerramos a primeira fase do núcleo de interpretação e ampliamos para mais um dia de ensaio do grupo, mantendo o foco na pesquisa da interpretação polifônica, aberto a todos os interessados que desejarem participar.