Teatro e Fotografia

O núcleo peripatético de Teatro e Fotografia tem como objetivo praticar e estudar a intersecção entre fotografia e teatro, buscando a elaboração de uma expressão artística que modifique parâmetros artísticos das duas linguagens. É objetivo investigar interferências plásticas sobre a imagem da fotografia, como a montagem, por exemplo, em uma experimentação que envolveria a criação do cenário do espetáculo Corpos Acumulados. Sob esta linguagem, imagens da pesquisa e do processo de ensaio poderiam ser incorporadas ao espetáculo.  A partir do questionamento “Como criar uma fotografia em movimento” e “Como criar uma cena fotografada”, o núcleo iniciou sua investigação em relação entre Teatro e Fotografia. Nessa etapa do projeto o núcleo foi elaborado partir da união de conceitos fotográficos pré-definidos – neste caso utilizado como inspiração artística e não como obrigatoriedade técnica/fotográfica – referência teórica e o tema de pesquisa da II Trupe de Choque: “Corpos Acumulados”.

Decidimos então unir conceito fotográfico+referencial teórico+referencial visual. Elencando da seguinte maneira. Conceitos fotográficos para pesquisa: Curta Exposição, Dupla Exposição, Longa Exposição, Variações de cor (PB, Color, Xpro), Close-up (Macro), Grande-angular (imagem aberta) e Desfoque. Referencial teórico: “O teatro da morte” – Kantor e “Escritos de um louco” – Artaud. Como referencial teórico visual os seguintes artistas para nortear os conceitos fotográficos investigados: Michael Kenna, Alexey Titarenko, David Lynch, Frederico Fellini, Sergei Eisenstein e Andrei Tarkovski.

Mais do que a exploração desses conceitos para o processo de “Corpos Acumulados”, descobrimos maneiras diferentes de utilizá-los como: um conceito norteador para trabalho de personagem, para ensaios, sugestões plásticas para o espetáculo, experimentação para e com os outros núcleos. E mais do que a sua utilização no núcleo, tais conceitos nos serviram para que pudéssemos enxergar o processo com um ponto de vista critico. A cada dia de trabalho com o núcleo  de Teatro e Fotografia percebemos e experimentamos maneiras diferentes de entender como funciona a intersecção entre essas duas linguagens e assim percebemos múltiplas formas de enxergar o processo.

Encontro 1 – dia 14/02

O primeiro dia de experimentação do cronograma do núcleo, foi realizado com o intuito de experimentarmos os conceitos que havíamos levantado e discutido anteriormente, a idéia para esse encontro foi a criação de um procedimento capaz de unir todas as referências propostas mais o conceito do Núcleo.
Referencia: Beckett+Kenna+Grande angular
Coordenação: Mauricio Alcântara

Procedimento

Espaço: Rua do convívio

Aquecimento:
- O espaço te leva para o Paraíso e para o Purgatório
- O espaço transforma seu corpo
- O tempo interfere no seu corpo ( passado/presente/futuro)
- Seu corpo contempla as imagens
- Seu corpo se modifica através das imagens e do texto
Improvisação: criar uma “fotografia em movimento” ou “uma cena fotografada” a partir de movimentos selecionados.

Encontro 2 – dia 21/02

Experimentar e unir as referências selecionadas do núcleo de fotografia a cena 1, que era a proposta de acordo com o cronograma. O objetivo especifico desse encontro foi experimentar o conceito fotográfico do dia aos personagens que pesquisávamos da cena 1, os trabalhadores do campo de refugiados na alta Líbia.
Referencia: Longa Exposição + Titarenko + Kantor

Coordenação: Sansorai Oliveira

Procedimento:
Espaço: convívio

Aquecimento:
- Seu corpo é uma máquina de guerra, uma máquina de guerra enferrujada
- Sua única função é desenferrujar, se engraxando para continuar a trabalhar
Improvisação: criar uma “fotografia em movimento” ou “uma cena fotografada” dos trabalhadores do campo de refugiados na alta Líbia.

Encontro 3 – dia 28/02

Conceito do encontro experimentar formas de construir a embarcação de Ulisses na cena de transição.
Referência: Close-up+ Fellini+ Bosch

Coordenação: Mauricio Alcântara

Procedimento
Espaço: convívio
O aquecimento já trazia os elementos e a temática da cena que seria experimentada. Foram espalhados diversos objetos e dezenas de malas, bolsas, sacolas e caixas pelo espaço do convívio. Pelo microfone, era divulgado, em voz robótica de aeroporto, que o barco sairia a qualquer momento. Os atores estimulavam os moradores a arrumar suas malas para fazer uma viagem. Atraídos pelo microfone e pelos objetos, os moradores aderiam rapidamente à proposta, buscando pegar o máximo de pertences que encontrassem e colocassem em suas bagagens.
Feitas as malas, todos os participantes se reuniam no ponto de onde sairia a “jangada” e, juntos, carregando malas, objetos e bonecos, saíram do patio do convívio e partiam em busca das sereias. A cada instante, um dos “tripulantes” ou “passageiros” era convidado a levar a jangada ao local onde acha que fica o destino. Ao mesmo tempo, outra pessoa era convidada a registrar a viagem por meio de fotografias. A inspiração de E La Nave Va, de Fellini, e A Nau dos Loucos, de Bosch, dispersaram-se com o conceito de DERIVA que surgiu com muita força ao longo dessa “viagem” sem destino.

Encontro 4 – dia 7/03

Meyerhold em uma conferência dada em 1913 fala sobre a necessidade do ator de constantemente ter que olhar para seu corpo. Olhar para dentro de si, perceber seus estados físicos, e a partir desse espelhamento, perceber as alterações em seu corpo.Partindo dessa idéia colocada por Meyerhold, o núcleo esse dia experimentou o exercício de espelhamento, unindo ao conceito de desfoque e o texto “Como criar para si um corpo sem órgãos”de Artaud.
No cronograma geral estávamos experimentando a cena 2 do roteiro, e a idéia para fotografia esse dia era de testar possibilidades para as personagens da sereias, e a partir de uma vivencia com as mulheres da enfermaria aguda feminina, experimentar as vozes dessas sereias, e como seria criar uma sereia, sem rosto, desfocada, em ruínas?
Conceito: Desfoque+ Artaud+Meyerhold
Coordenação: Sansorai Oliveira

Espaço: Enfermaria feminina

Procedimento
Aquecimento-
Os atores selecionam 3 objetos que modifique o corpo
Descrever o estado do corpo, espelhamento
Explorar por todo o Pinel maneiras de ler o texto (trechos selecionados de textos de Artaud)
Instruções sobre o aquecimento foram dadas utilizando o walk-talkie:
seu corpo desfoca o espaço
seu corpo escorre pelo espaço
você é uma sereia sem rosto, desfocada
Antes de chegar a enfermaria cada um tira um auto-retrato da sereia sem rosto, espelhamento
Ao chegar na enfermaria feminina, os atores tem como objetivo seduzirem as pessoas a também se tornarem sereias
Improvisação: a partir da experiência encenar o momento em que as serias convencem Ulisses a não jogar os corpos no mar (cena 2)

Encontro 5 – 14/3

Referência: Tadeusz Kantor + Fotografia turística
Coordenação: Mauricio Alcântara

Procedimento
Espaço:Agudos feminino

Procedimento: começamos o aquecimento nos quiosques do Pinel, os atores eram estimulados a explorar movimentos de animais (de caça, de alimentação, de movimentação, de ataque, de fuga). A partir do conceito que Kantor define como “empacotamento”, estes animais passariam a ser “empacotados” ou, no contexto da cena, “empalhados”.

O exército dos animais empalhados então é conduzido ao agudos feminino onde deve contar com a adesão de outros animais para que estes também queiram ser, voluntariamente, empalhados – criando a insólita situação de um safári/zoológico de animais inertes (como imagem possível para a cena do safári do shopping). O conceito de “tour fotográfico” proposto, em que cada animal teria sua chance de apresentar os demais animais, não funcionou, mas o experimento deu origem a uma das imagens d safári do Pinel no ensaio aberto de maio, sendo a soma desta cena com a antiga cena da “jaula dos negros” existente no Experimento 1, de dezembro.

Encontro 6 e 7– dia 21/3 e 28/03

Nesses dois encontros, o núcleo realizou discussões sobre as referências dos seminários que foram realizados nos dois dias. As discussões fomentaram questões sobre o andamento do núcleo até esse momento, sendo levantados pontos sobre uma nova perspectiva que o núcleo de fotografia poderia assumir, o de reflexão sobre os espaços, cenários ou qualquer forma de imagem proposta para Corpos Acumulados.A idéia seria a intervenção sobre tais propostas, a partir do conceito de criação de imagem de anti-mercado.

Encontro 8 – dia 4/4
O núcleo de fotografia esse dia realizou um laboratório do personagem Ulisses com o ator José Mauricio.
O conceito era experimentar a volta do Ulisses do inferno, e o momento que ele relata o que viveu. Trabalhamos com a proposição de criação de imagens internas desse inferno, e como elas modificam o corpo de Ulisses, quais as marcas e quais os detritos Ulisses traz do inferno.
A proposta de improvisação foi a de Ulisses elaborar uma partitura e mostrar as imagens que trouxe do inferno.
Referência: Odisséia+Desfoque

Encontro 9 – dia 11/4

Baseado na experimentação da semana anterior, o núcleo criou, a partir de todas as referências acumuladas até o momento, uma jornada para o personagem Ulisses na cena 3, onde ele é uma atração do shopping. O experimento gerou uma das cenas do ensaio aberto realizado em maio, em que Ulisses, amarrado à árvore, era torturado e fotografado por Édipo ininterruptamente.

Encontro 10 dia – 18/4

A partir de uma idéia que surgiu no núcleo de tecnologia, sobre a projeção de fotos somente dos rostos de pessoas de um campo de refugiados. Referência: Sobreposição+Artaud
O experimento do dia, foi então fotografarmos todas as pessoas do Pinel, fotografar somente os rostos. A cada retrato tirado de uma pessoa, pedíamos para tirar um retrato nosso também. As pessoas eram interrompidas no que quer que estivessem fazendo para serem fotografadas e para fotografarem. As fotos geravam rostos surpresos, confusos ou incomodados com a súbita interrupção.

Encontro 11 – dia 25/4

Das fotos tiradas no encontro da semana anterior, realizamos no experimento de sobreposição, editando as imagens no Photoshop. A busca era pela criação de imagens que, sobrepostas, anulavam as características das “matrizes” para gerar novos rostos, personagens e personalidades (muitas delas até mesmo irreconhecíveis).

Encontro 12 – dia 16/5

Sobreposição de Imagens + Projeção + a plasticidade de Robert Wilson
Desta vez, em vez de utilizar um software para sobreposição de imagens, as imagens seriam sobrepostas FISICAMENTE, com o uso de projeção. Além disso, as imagens teriam movimento, seriam projetados vídeos em alta definição que garantiam que a imagem criada não seria mera sobreposição ao vivo de fotografias: mas que gerasse imagens não esperadas que, estas sim, fotografadas, seriam fotografias legítimas dessa sobreposição.
O experimento conduzido por Maurício foi a partir da jornada de personagem proposta por Sansorai. O experimento iniciou-se no convívio antigo, onde houve um aquecimento e as primeiras interações com as imagens, e em seguida desceu ao agudos feminino.

Ao término do encontro, foi constatado que deveríamos dar foco ao agudos feminino nos próximos encontros, para estabelecer uma relação de troca mais concreta e continua com aquele espaço, ainda que as pacientes mudassem de semana a semana. Além disso, assumimos Kantor e seu “Teatro da Morte” como a referência imagética central para o núcleo, abrindo mão de outras referências para dar mais atenção e profundidade às imagens suscitadas pela leitura do livro do encenador polonês.

Encontro 13 – dia 23/5

Esse encontro teve objetivo de explorar maneiras de realizar o conceito de infinita construção da fabrica/shopping da cena 4. Criar possibilidades para essa infinita construção e explorar as vozes dos personagens dessa cena.
As referências foram Tadeuz Kantor e variações de cor (Colorido, Sépia, Preto e Branco), e o encontro ocorreu na enfermaria (agudos) feminina.

Levamos diversos objetos para a enfermaria e espalhamos no jardim. Os objetos buscavam trazer o mínimo de relações simbólicas fáceis para as pacientes (no encontro anterior, um tule branco usado para a projeção perdia qualquer possibilidade de ressignificação simbólica quando as moradoras viam nele um véu de noiva).
Pedimos para as pessoas ajudarem na infinita construção, e para fotografarem a construção (cada câmera tinha uma configuração diferente de cor). Cada pessoa tinha que relatar o que haveria no shopping, ou na fábrica.
Improvisação: ao projetar as fotografias tiradas, teríamos que contra a história da construção infinita. Ao término, contamos a história, apontando personagens, cronologia e acontecimentos, a partir do slideshow das fotos concretizadas.

Encontro 14 – dia 30/5

O encontro foi uma experiência de intersecção dos núcleos de vídeo e fotografia. Cada núcleo realizou suas atividades próprias (pesquisa, referências, temáticas, procedimentos), mas utilizando o mesmo espaço em comum: o agudos feminino. Isso garantiu uma liberdade imensa a ambos os núcleos, pois havia abertura para que, com a simultaneidade das atividades, também fosse compartilhada a responsabilidade de “manter a peteca” do ensaio, garantindo que todas as pessoas ao redor estivessem igualmente envolvidas por alguma das atividades.

Na pesquisa fotográfica, exploramos a pesquisa do mergulho de Ulisses ao inferno das imagens, onde ele é condenado a registrar e ser registrado o tempo todo. Com essa proposta, todas as pessoas envolvidas poderiam participar do núcleo ajudando (e aparecendo) nestes registros, ao mesmo tempo em que estavam livres para também participar das instalações do vídeo. A referência imagética para este experimento foram os escritos de Kantor para o chamado “Teatro Zero”.

Encontro 15 – dia 6/6

Influenciados pela experiência da semana anterior, desta vez optamos por realizar o núcleo em conjunto com o núcleo de teatro e música. O local escolhido foi o jardim em frente ao convívio, onde os moradores tomavam sol, e, ainda inspirados pelo “Teatro Zero”, buscávamos o registro fotográfico dos sons e do tempo do local (e, em meio à pesquisa, também acabamos pesquisando a sonoridade e o tempo daquelas fotografias). Não conseguimos criar nenhuma cena a partir deste encontro.

Encontro 16 – dia 20/6

Foi proposto para o núcleo de fotografia a criação do vídeo do personagem Aquiles no platô 1. A conceito geral era a elaboração dos diálogos que o personagem tem, sendo a idéia a de que no espaço do Pinel ele não aparece fisicamente, e na Usina apareceria fisicamente e em vídeo coordenando um experimento.O desafio era pensar a fotografia do vídeo, seu tempo e espacialidade.
Nossa referência principal foi Bob Wilson, pois queríamos experimentar o conceito temporal proposto por ele. O experimento gerou múltiplas possibilidades, servindo como referência para utilização para outros personagens, Édipo e Antígona, e provavelmente como improvisação para outras cenas.

O encontro aconteceu na alameda principal do Pinel, em frente ao convívio e à quadra. Improvisamos uma grua de mais de 3 metros, e em sua extremidade instalamos uma câmera de segurança apontada para a outra extremidade do equipamento, garantindo que a pessoas que manejasse o aparato estaria sempre sendo “vista” pelo vídeo. Os efeitos visuais de enquadramento, tempo, movimentação, cores e ângulos foram extremamente ricos, e o experimento contou com a ampla adesão de todos que viam de longe o aparato: atores, enfermeiros, funcionários, moradores.