Núcleos Desterritorializados

Os Núcleos Peripatéticos de Pesquisa acontecem no CAISM Philippe Pinel e no Cieja Sapopemba, mas, com o objetivo de divulgar os núcleos e dividir nosso processo artístico e pedagógico com mais pessoas, resolvemos desterritorializar os encontros, realizando-os em outros espaços da cidade.

Com isso, expandimos os núcleos, indo além dos espaços que propusemos no projeto. Nesses encontros, é muito interessante perceber os temas que abordamos na peça vistos por outros ângulos, re-significados por outras pessoas por meio de suas diversas experiências. E, somados aos núcleos que acontecem no Pinel e no Cieja, os Núcleos Desterritorializados ajudam a construir a peça, Corpos Acumulados, que estamos construindo há quase três anos.

Metodologicamente, esses núcleos  têm como estrutura a pedagogia da desrazão, ou seja, são coordenados pelos artistas da II Trupe de Choque, nos revezamos para que todos possam planejar os exercícios e coordenar e, quem não coordena, participa da atividade como ator-coordenador, fazendo o exercício,  provocando os outros participantes e ajudando na coordenação. Por pedagogia da desrazão também entendemos a construção de um espaço de criação artística em que todos possam criar, colocar suas vozes .

Nesses encontros realizamos uma atividade prática que une teatro e outras linguagens artísticas: fotografia, literatura, tecnologia, artes plásticas, interpretação polifônica, música e vídeo – que chamamos de Núcleo de Linguagens Acumuladas. Partimos de algumas referências teóricas  dos núcleos que acontecem no Pinel e no Cieja ( por exemplo, o Núcleo realizado no Tendal da Lapa tinha como referência alguns encenadores estudados no Núcleo de Interpretação Polifônica: Stanislavski e Meyerhold e o artista plástico Magritte, estudado no Núcleo de Teatro e Artes Plásticas). Também usamos como referência cenas no nosso roteiro e alguns exercícios que utilizamos em nossos ensaios.

Em cada encontro, os participantes são convidados a fazer os núcleos peripatéticos nos nossos espaços e convidados a entrar no grupo, visto que estamos permanentemente abertos para a entrada de novas pessoas.

Ao total, foram realizados treze Núcleos Desterritorializados desde a primeira etapa do Fomento, e temos como objetivo dar continuidade também na terceira fase.  A seguir, falarei especificamente de cada atividade realizada.

Núcleo realizado no Hospital Psquiátrico do Juqueri, em 09/10/2008
Nesse dia, era a segunda vez que o grupo ia ao Juqueri, na primeira, fomos convidados a conhecer o lugar e na segunda, fomos convidados para propormos uma atividade prática. Decidimos fazer um Núcleo Peripatético e dessa forma, era a primeira vez que faríamos um núcleo fora dos nossos espaços e começávamos assim a ampliar nosso processo de pesquisa.

Proposta:

A partir do texto, em que Beckett narra a saída de um interno de um manicômio, construir um personagem. Buscar no texto a história do personagem, assim como seu figurino e suas caracteríisticas.para complementea o estudo de Beckett, encararemos o personagem como se este fosse Édipo expulso do Centro Rizomático. Como mencionado no texto, este nosso Édipo carregaria consigo um caderno. Que caderno é esse? Qual seu tamanho, sua cor? Cada um construirá seu caderno e o preencherá com desenhos de paul Klee ou inspirados nele. Com qual material Édipo desenha em seu caderno? Durante a improvisação no Juqueri, cada um irá contra para as pessoas que encontrar a sua história, pedindo que, em troca, lhe contem também uma história e que que desenhem a história no caderno.

Enquanto todos apresentam o seu personagem e colhem desenhos, uma dupla ficará no patio central improvisando movimentos em quadrado. Essa improvisação , além do encontro dos Édipos, buscará uma relação com o público em volta. Aregra é nunca sair do quadrado e nem deixar de se mover por suas linhas e diagonais.

Depoimento de Luzimara Azevedo, atriz da II Trupe de Choque:
Nesse dia havia uma festa no Juqueri, unindo dois convívios e era nessa festa que propúnhamos o núcleo. Tinha muitos moradores. A história que coloquei no meu caderno foi a de um senhor, ex-garimpeiro, garimpava diamantes. “ Quando o diamante é lapidado, faz um baruho alto, parece um grito”. Ele queria ir embora do Juqueri e voltar para o garimpo.

Aos poucos, o espaço foi sendo tomado pelos desenhos que eles faziam. Íamos improvisando em quadrado. No fim, resolvemos fazer uma cena sobre toda aquela experiência vivida ali. Durante toda a festa, um morador – que nasceu no Juqueri- ficou dublando as músicas que tocavam e, quando tiramos as músicas, ele começou a cantar, fez a sonoplastia da cena: Todos os moradores que estavam ali sentados se levantaram e fizeram uma roda, uma roda de Édipos, aquela roda era a embarcação de Ulisses e todos faziam movimentos de mar.

Núcleo no Tendal da Lapa

Realizado em 3 encontros, nos dias 09, 16 e 21 de junho.

Esse núcleo teve como referencial teórico os encenadores Meyerhold e Stanislavski e o artista plástico Magritte. Além do platô 1, do roteiro. Foi estruturado seguintes etapas: no primeiro dia, haveria um contato com o tema da nossa peça: as relações contemporâneas de trabalho; no segundo dia, haveria um contato com o tema da peça e os personagens; e no terceiro dia, haveria um aprofundamento do encontro, e a apresentação de uma cena.

Primeiro dia, proposta:

Andar pelo espaço;
Buscar o olhar do outro nesse espaço;
Buscar uma dupla;

Em dupla, um fecha o olho e se movimenta a partir de onde seu corpo é tocado pelo outro; aos poucos esse movimento vai se transformando em uma dança, depois troca;
Em dupla, os dois de olhos fechados, vão tentar fazer o mesmo movimento;

Depois desse aquecimento, permaneciam as duplas e um tinha que conduzir o outro, que estaria vendado, pelas ruas da Lapa, durante vinte minutos, depois troca;
Voltando ao Tendal, as duplas improvisavam, a partir do exercício, uma cena sobre o tema:
Fábrica abandonada/ shopping no meio da selva.

No fim do encontro, pedimos para todos trazerem no dia seguinte, auto- retratos feitos ao longo da semana. Podia ser em qualquer superfície, da maneira que quiserem.

Segundo dia, proposta:

Com o seu auto-retrato, começa se movimentar pelo espaço; movimentar a partir do auto-retrato; o corpo todo, em todo o espaço, em diferentes ritmos, seu corpo não para de se movimentar;

Troca de auto-retrato com o outro, se movimenta a partir do retrato do outro;
Congela, faz um auto-retrato seu agora (eram entregues diversos materiais: papéis, cola, câmera fotográfica);
Volta a se movimentar pelo espaço;
Repetia-se esse exercício algumas vezes, de se movimentar, parar e se retratar; entregava-se uma frase: “Aquiles, cientista de holding do lixo encarrega Ulisses de jogar os corpos de um campo de refugiados em Paris ao mar” e experimentava-se formas de dizer o texto;

Constrói uma partitura, uma sequência de ações, elencando alguns movimentos experimentados durante o exercício;

Cada um apresentava sua partitura; depois nos dividimos em dois grupos e improvisamos uma cena a partir da frase entregue e contendo as partituras.

No fim da atividade, pedimos para que todos fizessem o seguinte exercício, para trazerem no próximo encontro:
Encontrar na frase- que trabalhamos- três objetivos e transformar cada um deles em uma ação física e em uma sensação, que será feita no outro.

Terceiro dia, proposta:

Andar pelo espaço
Procurar o olhar do outro; experimentar formas de se relacionar com o outro
Busca uma dupla

Começa o exercício dos objetivos:
Primeiro as ações físicas, um faz uma ação, o outro reage; depois faz as sensações, um faz o outro reage;
Começa a improvisar a cena a partir da frase, dos objetivos, das ações e sensações, e pode começar a trazer palavras;

Passa os objetivos do personagem , as ações e sensações apenas com olhar, sem se movimentar;
Passar a distância;
Cada dupla apresenta a cena.

Observações/comentários:
No primeiro dia, quando perguntamos o que despertou o interesse para vir fazer os núcleos, uma das participantes, Rosângela, respondeu: “o nome Corpos Acumulados, acho que tenho um corpo acumulado – estou desempregada há seis anos e com trinta e quatro anos você é velha para trabalhar como vendedora numa loja de jeans, por que? Pessoas de trinta e quatro anos não usam jeans?”

Sobre as propostas, os participantes disseram: “ o teatro que vocês fazem permite que qualquer pessoa possa criar, fazer, não precisa ter experiência em teatro ou conhecer muito da pesquisa de vocês. Basta estar aberto, se permitir, aí percebemos que vamos saindo do corpo cotidiano, descobrindo novas formas de relacionar com o outro, de improvisar cenas”.