As Experiências

Corpos Acumulados É uma obra permanentemente aberta, em permanente processo de criação e experimentação. Por isso, cada temporada é uma etapa experimental e todas são diferentes entre si:

Experiência 1

Novembro de 2008 a Janeiro de 2009

Exploração do espetáculo Dois espaços em Simultaneamente. Apresentações ocorreram na Usina e no Pinel, ao mesmo tempo, a partir de dois pontos de vista contraditórios. Tanto na Usina quanto no Pinel, o roteiro de cenas é o mesmo. O que difere é o ponto de vista das cenas um Serem montadas em cada lugar. PONTO DE VISTA DA USINA: O ATRASO, O precario, O ARCAICO. MAIS DO QUE ISSO: ponto de vista dos donos da vida danificada e dos cúmplices da dominação. PONTO DE VISTA DO PINEL: O MODERNO, O PROGRESSO, a velocidade. MAIS DO QUE ISSO: dos soterrados Ponto de Vista. Como Vivem os soterrados (ou são expurgados) do Progresso? O conceito que regeu o espetáculo, o da duplicação infinita e labiríntica da forma mercadoria, Estabeleceu como princípio para uma dualidade que reproduz espetáculo (que as contradições da sociedade brasileira) o de que a peça em cada cada espaço é outra e mesma sumultaneamente. Corpos Acumulados igual e é distinto de si mesmo nos dois espaços. Seguindo o conceito dos dois espaços, como no capitalismo brasileiro, o experimento avançou repondo o atraso, desenvolveu-se retrocedendo, modernizou-se alimetand-se do arcaico.

A Usina é o espaço de grande interferência no processo. O contato com o lixo da Usina, o espaço gigantesco e vazio modifica nossos corpos, mesmos sem estarmos lá. O espaço precário, de difícil acesso, onde há guardas que realizam a segurança do nada, e representa para Corpos Acumulados o ponto de vista dos dominantes sob a perspectiva do arcaico, nos revela ao pensar em cada cena naquele espaço, possibilidades múltiplas para o espetáculo. E por mais que estejamos fora dela focamos a criação de cenas, mesmo no Pinel, em espaços que de alguma maneira dialoguem com ela. O elenco mesmo ausente dela continua dividido e focado em contar o processo sob os diferentes pontos de vistas (Sansorai – Integrante do grupo)

Para tratar do sujeito contemporâneo pesquisamos um registro de interpretação que possa dar conta das diversas vozes que atravessam e compoem o sujeito: um registro que chamamos de interpretação polifônica, que estamos construindo ao longo desses quase três anos de pesquisa. Os personagens que estamos construindo são compostos por vários agenciamentos, várias vozes que atravessam suas trajetórias e para isso buscamos uma interpretaçào polfônica, um corpo polifônico (Luzimara – Integrante do grupo)

É um desafio muito grande, temos uma Usina de Compostagem de lixo e um hospital Psiquiátrico, dois lugares extremamente opostos e de diferente relação.Temos que manter esses dois lugares totalmente relacionados pois eles são nossas bases e estrutura. Sem essas relações é muito difícil esclarecer nosso ponto de vista referência de nossa linguagem artística, sendo dois pontos de vista diferentes e a mesma peça (Carmem – Integrante do grupo)

Tudo o que o ser humano usa e não serve mais é jogado fora, transformado em lixo, algo que incomoda que queremos nos livrar, que não serve mais para sociedade. Com o capitalismo as coisas ficaram cada vez mais descartáveis até mesmo o ser humano (Leila – Integrante do grupo)

Ao dividirmos o espaço tínhamos a grande pretensão de realizar conexão via internet entre os dois espaços, idealizamos essa idéia e no decorrer acabamos barrados pela realidade, trabalhamos em duas periferias nos extremos da cidade, a conexão possível não oferece nenhum tipo de instabilidade, nos deparamos com diversas esferas da burocracia e por fim a única forma de estabelecer uma conexão seria impossível paga-la. A tentativa do ensaio aberto em dezembro, foi a realização de uma cena simultânea via telefone, onde o mesmo dialogo era tratado sob pontos de vista diferentes. Me questiono como é possível em uma mesma cidade em espaços tão próximos, centro – zona leste/centro – zona oeste, haver diferenças tão gritantes sobre como cada um desses espaços vivem, sobre qual a maneira como vivem os indivíduos de cada espaço. A forma como lidam e utilizam tecnologia é totalmente diferente, isso é claro simplesmente com a visita a qualquer um dos espaços, Pinel ou Usina, se utilizando do transporte público (Sansorai – Integrante do grupo)

Defendo essa idéia dos dois espaços.O publico vê a mesma peça sob dois pontos de vista diferentes(pois o espaço interfere na peça,o espaço não é indiferente).Com isso teremos diversos pontos de vista:de quem viu na Usina,de quem viu só no Pinel,de quem viu primeiro na Usina(e depois no Pinel),de quem viu primeiro no Pinel(e depois na Usina)(Anderson – Integrante do grupo)

Usina: temos a relação da dominação daquilo que é o atraso,o precário
Pinel:temos a relação dos dominados o moderno,o progresso

Realizamos uma ampla temporada de ensaios abertos na Usina. No, entanto uma decisão da Secretária Municipal de Serviços nos proibindo a continuar a ocupação cultural na Usina, alegando falta de segurança. Desde então, todo o grupo se mobilizou para a recuperação da Usina. Tivemos várias reuniões com os responsáveis pela autorização do nosso retorno a Usina. No dia 03/06/09, nos reunimos com o responsável pela garantia da segurança da Limpurb. Fizemos o percurso da peça com ele, que se certificou que não há perigo em continuarmos na Usina. Apesar do parecer positivo de Sting, ainda não saiu à autorização do nosso retorno a Usina no diário oficial, com isso nossa ocupação continua interrompida. Mesmo sem poder utilizar a Usina, continuamos a investigação do espetáculo no espaço do Pinel

Experiência 2

11 de setembro a 18 de outubro de 2009

Experimentar uma dualidade de pontos de vista em um mesmo espaço, em um roteiro único, ressaltando uma convivência íntima ea interdependência das contradições que formam o capitalismo tardio e espetacular Brasileiro. Apresentação do experimento em platôs, realizando a cada dia Platô distinto um, visando uma participação ativa do público no processo de criação do experimento.

O ensaio em devir Corpos Acumulados procura estabelecer com seu público uma experiência crítica. Além de uma racionalidade cínica, que se estabelece na relação com o público, que não sabe nunca quais as regras do jogo e as leis a que está submetido, estamos lidando com uma tentativa de experiência coletiva.
As relações entre atuantes e platéia, entre a gênese poética e sua performance, entre o texto e sua presentação estão alteradas por esses novos sujeitos da cena: corpos que ganham outro alinhamento, consciências que criam outro tempo cênico, um tempo da espera, do imprevisto, do espontâneo, construções cênicas que propõem a suspensão e a epifania, mecanismos esses que afirmam uma cena – capaz de dar conta das novas espacialidades e temporalidades do capitalismo tardio – sustentada no acontecimento e não na representação, na emancipação e não no ensino

As perguntas norteadoras nos seguiam: “Que tipo de teatro queremos fazer? Qual forma é capaz de dar conta dos temas tão complexos que há 3 anos estamos pesquisando: As relações contemporâneas de trabalho, o homem como centro dessas relações, como um indivíduo esburacado, repleto de vozes que o perpassa, como um consumidor, controlado pela forma mercadoria, cujo corpo é depósito de geração de valor
Partimos do herói trágico, indivíduo dotado de uma conduta e de uma forma de agir coerente, cuja trajetória é bem delineada, para nos tempos esses negá-lo e deformá-lo. É possível um herói hoje em dia, nos perguntamos?
O trabalhador do teatro épico também há muito já se calou. Nos interessa buscar o sujeito de hoje, bombardeado pela quantidade de informações e rapidez com que as coisas passam, que faz mil coisas ao mesmo tempo e que por isso muito pouco experimenta de fato. O sujeito de milhares de vozes em um só corpo (Carmem – atriz do grupo)

Relato do ator em cena – Na 1ª cena da peça, eu filmo uma cena num espaço (”parquinho”) que é transmitido para o público que está no espaço da “casinha”. O interessante dessa cena é a fronteira (limite) entre estar e não estar em cena. Visualmente eu estou fora de cena, mas o meu olhar não. O meu olhar é mostrado pelo jeito que eu filmo a cena. Se por acaso eu filmo o que não deveria filmar a gravação fica comprometida. É um modo criativo e artístico sobre a cena, não apenas o lado técnico da filmagem.
Uma situação interessante que ocorreu: houve um aquecimento nessa cena mediada pela filmagem.O pessoal do espaço da “casinha” via as instruções dadas pelo diretor no espaço do “parquinho”.Aonde os 2 elencos aqueceram mediados pela filmagem.
Durante a temporada do Experimento 2, houve uma mudança na filmagem para haver um diálogo maior (uma interferência maior) entre os espaços, pois parte do público tinha a sensação de que o vídeo era gravado e não era ao vivo

Para compreender e transparecer a compreensão é preciso mais. Mais renúncia ao corpo cotidiano que ao realizar simples mimese dos movimentos do dia-a-dia pouco revela a respeito da realidade em que vivemos. Mais abandono ao corpo teatral convencional e viciado pelos automatismos que desenvolvemos ao entrar em cena que também pouco dizem sobre um mundo que a um só tempo personaliza e padroniza as relações e reações. Como sugere o titulo do projeto é necessário um corpo acumulado que esteja pronto a compreender novas formas, reconhecer novas extensões do corpo adormecido (Cintia – atriz do grupo)

Todas as situações revelam o antagonismo, as contradições e o conflito em nosso dia a dia. Seguido das leis que mantém a ordem, a ética e a moral que estabelece culturalmente a nossa educação social, e quebrar as regras ideológicas estabelecidas, é ir de encontro com o desconhecido. “A Polifonia” é, um desafio inovador que ativa a adrenalina a que percorre o corpo, dentro do universo teórico tão próximo em sua pratica tão distante, tarefa à principio impossível de realizar. Nos jogamos no abismo em busca de descobrir horizontes que através de outras linguagens, surgem varias criações de novos registros e partituras corporais. Essas multiplicidades de sons e movimentos que dialogam ou não entre si, são reveladas através dos registros de comportamentos que transparece na interpretação dos atores, onde cada um traz suas experiências de vida e, junto com as referências pesquisadas isso provoca grandes conflitos e traz uma explosão de polifonias (Elezeu – ator do grupo)

Utilizando câmeras de circuito internos, filmadoras, projetores e monitores, videoinstalações e videoperformance dá-se, uma miscigenação das práticas criativas, nas quais os artistas passam a transitar por meios e suportes menos ortodoxos, como a computer art, a fotografia digital, as instalações interativas e o próprio vídeo, que se transforma numa ferramenta cada vez mais acessível em função de seu extraordinário desenvolvimento tecnológico; processo este que rejeita qualquer tipo de representação totalizadora, deixando patente nas obras as suas próprias dúvidas e a parcialidade de sua intervenção, em mesmo tempo que se interrogam sobre os limites de seu gesto enunciador e sobre a sua capacidade de conhecer realmente o outro

O dispositivo mais básico do vídeo: o confronto da câmera com o corpo do artista. O trabalho concebido num único plano contínuo, tomado em tempo real trazendo o olhar para dentro da cena, ao mesmo tempo que este olhar vê outra cena, o público que encontra-se no espaço e vêem o ato de olhar. No momento em que a câmera entra em ação, o registro não é apenas uma representação do real, mas sim uma vivencia dialogada com o tempo e espaço presente, passado e futuro

Este video, da apresentação do experimento II, foi sendo criado no decorrer das apresentações do espetáculo, em 2009, tendo a cada nova fase, um novo formato, pois, assim se tornou um fluxo permanente a cada apresentação, sendo construídos vídeos a partir das imagens do espetáculo que estava sendo apresentado naquele dia, sendo entregue uma mídia em dvd, ainda em cena para publico, com imagens do publico

A ação do vídeo se desenvolve durante a apresentação do espetáculo, tendo a câmera como um objeto de ação dentro das cenas. Em uma delas, o ator ao encontrar com o publico mira-os com uma câmera, como com uma arma, sendo objeto cênico ao mesmo tempo em que registra imagens que constarão no DVD a ser distribuído posteriormente. Em outra cena, o público é fotografado dentro da cena, e ao mesmo instante filmado. Após este processo as imagens capturadas tanto pela câmera fotográfica, quanto pela filmadora, junto ao computador, entram em ação

É o momento de transferir as imagens para o computador e editá-las, para isso foi preciso definir os fragmentos exatos das imagens captadas durante o espetáculo, para então calcular o tempo de processamento em que a montagem seria realizada, tanto da edição, quanto do processo de transcodificação de arquivos das imagens. As imagens filmadas quando fotografadas serão posteriormente usadas nas cenas seguintes, introduzindo as cenas primeiras nas posteriores da mesma forma como se consegue transformar o público em objeto de cena, resignificando-os por meio de tecnologia.
Durante a montagem do vídeo, calcula-se o tempo de edição das fotos e filmagens junto à ‘linha de montagem’ do material pré-editado, em seguida, o tempo para ‘renderizar’ o vídeo (para que o material audiovisual esteja finalizado antes da cena em que será utilizado). Para finalizar, o tempo do processo gasto para a transcodificação do arquivo ‘AVI’, para DVD. Terminado a montagem em DVD, utilizamos uma duplicadora na qual imprime 11 DVDs simultaneamente, o que leva em torno de 5 minutos. Todo este processo é realizado no decorrer do espetáculo
Os DVDs entregue para o público, o espectador, ao assistir ao vídeo, reconstrói mentalmente a mensagem fragmentada da montagem, em paralelo as cenas da apresentação, em alguns casos, um outro texto do roteiro é modificado, o que permite ao espectador criar outros significados. A cada apresentação do espetáculo, o vídeo é modificado, tanto com imagens e fotografias do publico, como por imagens e apresentações de ensaios anteriores

Não se trata se sugerir para o público-espectador, que todo o vídeo foi a apresentação do mesmo dia do espetáculo, mas, explorar novas formas percepções associadas à memória dos ensaios e das demais apresentações, leituras e conexões entre o público participante, o teatro e o vídeo, onde o público ao assistir o vídeo do espetáculo e se ver enquanto sujeito da ação, interação, possa refletir, e se aprofundar nas ligações sutis e muitas vezes inéditas do material trabalhado. Nossas fontes criativas, autônomas, aptas a criar novas sensações, modos de agir, pensar, experimentar o próprio corpo, intensificando e explorando novas possibilidades

Experiência 3

31 de outubro a 20 de dezembro de 2009

Apresentação do experimento na íntegra, com todos os seus platôs sendo realizados Simultaneamente. Aqui, o público torna-se como dramaturgo Participante: crítico do processo e do resultado como um todo, e apontando rumos Intervenções a partir do ponto de vista da totalidade.

Experiência 4

30 de janeiro a 28 de março de 2010

Após a intervenção do público em todas as etapas anteriores, é apresentada mais uma versão do experimento, versão integral, Capaz de unir todas as Intervenções dos Participaram do que como criadores PROCESSO: atores, artistas e público diversos, constituindo Corpos Acumulados como um devir permanente , Estabelecido como um amplo processo coletivo de criação.

EXPERIÊNCIA QUATRO

Ensaio aberto realizado dia 20 de março de 2010