Vladimir Safatle fala à Trupe sobre conceitos de seu novo livro, Cinismo e falência da crítica
Em mais uma atividade teórica como parte da criação do espetáculo Corpos Acumulados, a II Trupe de Choque recebeu no último dia 8 do 8, no auditório CAISM Philippe Pinel, o professor de filosofia Vladimir Safatle, autor do recém lançado Cinismo e falência da crítica (Boitempo), no qual parte do conceito de cinismo enraizado no cotidiano para explicar as relações sociais contemporâneas. O evento contou com cerca de 40 pessoas, e em breve estará disponível em vídeo no blog da Trupe.
Safatle começou pontuando a questão da subjetividade irônica, sobre como essa idéia de ironia está presente na noção moderna de sujeito. Ele vê o sujeito moderno como um sujeito irônico, numa experiência de transcendência em relação aos fenômenos e aos enunciados. “Estamos entrando numa era de ironização das formas de vida e fragilização dos princípios e normas.” A forma de vida, que é composta pela interação entre trabalho, desejo e linguagem, estaria assim permanentemente perpassada pela ironia, refletida também na chamada “crise de legitimidade” desses princípios e normas.
“A ironia se transformou num modo de viver, numa forma de estabilizar um mundo em decomposição” afirma o professor. O processo, no entanto, não é recente, uma vez que o exemplo citado é o de Machado de Assis, maior expressão da literatura brasileira e que apontou como o conjunto de idéias norteadoras da modernidade não tinha solo. Para Safatle, Machado era um ironista, retratou bem esse modo de lidar com um mundo em decomposição.
A partir dessa introdução, ele explica que sua intenção no livro novo era analisar uma patologia social: o cinismo. Primeiramente é importante observar que nos processos de racionalização que compõem a forma de vida hegemônica (que é a base para o padrão que organiza o conjunto da vida social) há um conjunto de valores e regras mas, além disso, há um modo de seguir esses valores e regras. “Há várias maneiras de seguir regras, o acordo para valores e normas não é necessariamente acordo quanto à aplicá-las.”
Vladimir Safatle aponta a existência atual de “núcleos muito fortes de consenso”, o que explica por exemplo um discurso político cada vez mais parecido e homogêneo. Os discursos hegemônicos mostram valores quase consensuais, mas no entanto “o peculiar é a capacidade que temos de, a partir desses valores, invertê-los ao aplicá-los”. O cinismo é “um horizonte de racionalidade no interior de nossas formas de vida”, afirma, é uma patologia social, “nossas formas de vida não se adequando a partir disso, num mundo em desagregação e generalização de situações de anomia” explicado e exemplificado pela presença de normas “que já não regulam mais”, não garantem como nem se serão aplicadas.
“O que é uma sociedade totalitária?”, pergunta Safatle. “Não é simplesmente organizada a partir da lei e do poder, mas é também onde nunca se sabe de que maneira a lei será aplicada, na verdade você estará sempre à margem da lei, ela sempre será aplicada contra você”. Como se constrói esse tipo de sociedade, que linguagem existe para lidar com esse tipo de situação, esse foi o objetivo de seu estudo, afirmou.
Safatle repisa a existência de uma “desagregação normativa fundamental na sociedade”, o que poderia surgir inclusive como contradição com a tendência de generalização dos dispositivos de segurança (e do Estado). Retoma Foucalt para voltar ao século 18,ao momento em que surge a categoria de população e a consequente necessidade do Estado interferir nesse setor para administrá-lo, não mais individualmente mas enquanto grupo. “Nossas formas de vida ainda são bipolares, o poder não age quando impõe uma norma mas quando consegue impor um certo modo de descontentamento em relação à norma” – gerenciar as margens é a função do poder, “não impor a ordem mas gerenciar a desordem”. A chave está em canalizar o descontentamento para dentro de seus próprios instrumentos, fazer com que se jogue “contra” o poder de acordo com suas regras e em seu campo.
Como exemplo do cinismo cita Silvio Berlusconi, que representa “um poder que ri de si mesmo” . A prática política de Berlusconi diz exatamente que seguir a lei significa saber flexibilizá-la, saber aplicá-la somente ao outro. Ele articula duas disposições contrárias, “alguém que age como uma criança que é pega fazendo algo errado e ao mesmo tempo fala como um ditador”.
E a arte, o pensamento crítico? Onde ficam nisso tudo? “Se há uma função do pensamento hoje é encontrar na arte os modelos para superação dessa situação”, afirma Safatle. “A arte sempre desmente o caráter fundamental de sua função social, consegue sintetizar formas que outras esferas da vida social não conseguem mais, ensina a elas outras formas de dizer as coisas.”



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